Por Igor Menezes Cordovil é Gestor de Marketing & Inteligência de Mercado do Grupo FAMETRO, Especialista em Política e Estratégia pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), e MBA em Marketing, Consumo e Neurociência pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). Contato: imenezes357@gmail.com
Por conta dos artigos que tenho escrito, outro dia um amigo me chamou de Igor Gump, em alusão ao personagem Forrest Gump, O Contador de Histórias. Na hora não sabia se ficava chateado ou alegre pela comparação. Porém, considerando que quem me disse isso é gente boa demais para estar tirando uma onda comigo, resolvi interpretar como um elogio, e assim começa a minha estória sobre esse tal Forrest, que considero um dos personagens mais estóicos do cinema moderno.
Na minha época – que já é quase um antigamente – alugar filmes era um ritual que poderia durar horas, escolhendo fitas na locadora, lendo sinopses sem fim e o que mais estivesse na capa. Além disso, era até mais bacana ir ao cinema, porque dava para convidar os amigos e assistir novamente se fosse bom. O fim de semana passava mais devagar e fugimos das reprises manjadas da Sessão da Tarde ou do SuperCine. Forrest Gump estreou em 1994 e, por incrível que pareça, apesar de tê-lo visto na prateleira da locadora uma centena de vezes, o comprei de um amigo por curiosidade porque achava engraçada sua imitação do Forrest dando tchau para o Tenente Dan. Comprei, mas guardei por mais uns dois anos até que resolvi assisti-lo em 2008, quatorze anos depois de o filme ter sido lançado. Descobri que não era filme para passar o tempo, mas para contemplar olhando para dentro, reinterpretando conhecimento e comportamento de um jeito diferente, meio bobo, recheado de significados subliminares. Para começar, não sabia que o Forrest era autista, e pouco se ouvia falar sobre o assunto na época. Depois, em duas horas e meia de filme ele se dá mal quase o tempo inteiro, porém, mesmo humilhado sem se dar conta disso, permanece resignado, não reclamando das injustiças que sofre, sem romantizar o coitadismo ou culpar alguém. Forrest é ingênuo, meio lerdo e desengonçado, reconhece suas fraquezas (coisa rara atualmente) e, ao mesmo tempo, é sincero e feliz, sem receio de ser verdadeiro, algo que a maioria de nós deixou de ser um dia, para agradar gente que nunca gostou de nós ou por medo de perder algo que nem valia coisa alguma. Quase tudo acontece da pior forma para chegar ao melhor resultado porque ele acredita no conselho da mãe: fazer o melhor com o que Deus lhe deu. E conselho de mãe vira profecia quando tem Deus no meio. Talvez por isso dê certo até quando parece impossível. Impossível mesmo é assistir a este filme sem rir e chorar um bocado. Admito: chorei mais do que ri, como choro até hoje assistindo, porque no fim chego sempre à mesma pergunta de dezoito anos atrás: por que não somos assim como ele, gigantes sendo pequenos, confiantes mesmo com medo da incerteza? Há quem o veja como retardado; prefiro considerá-lo um homem de bem, cuja missão é fazer algo da melhor maneira possível, errando e acertando, pois, talvez seja isso o que Deus espera de nós. Depois de todos estes anos, foi a melhor decisão não ter assistido antes.
Forrest me lembra o filósofo Epicteto (lê-se Epictéto), que no ano 200 d.C. ensinava ser melhor progredir aos poucos, mas constantemente, do que esperar ter todas as respostas para pensar em fazer algo à beira da morte, adquirindo “serenidade interior para aceitar as coisas que não podemos mudar, tendo coragem para mudar o que podemos e sabedoria para reconhecer a diferença entre as duas”. No livro “A Arte de Viver”, que coleciona vários de seus ensinamentos, mostra que para se viver a melhor vida possível, é necessário decidir sem excesso de sentimentalismo, compreendendo que a melhor decisão deve considerar a razão e que o melhor momento de fazer algo é agora, de preferência, bem-feito. Nada diferente de hoje, quase mil e oitocentos anos depois.
Em época de filósofos virtuais que nos empurram conselhos que eles mesmos não seguem, continuo concordando com a simplicidade do personagem do filme tanto quanto gosto da praticidade do filósofo, baseadas no bom senso de que todo ser humano é provido, mas pouco lembra de usar. No fim das contas, o importante é ser uma pessoa justa e fazer as coisas direito, inspirados pelos bons exemplos, mesmo os fictícios, somando acertos, subtraindo problemas, multiplicando boas ideias e dividindo o resultado com quem vier junto para, enfim, mudamos o status quo do que está ao nosso redor, começando pelo lugar mais próximo: dentro de casa. Nas palavras da mãe do Forrest – e da minha – temos que fazer o melhor com o que Deus nos deu. Meu saudoso irmão Divaldo Franco e Joanna de Ângelis complementam com uma frase ainda mais verdadeira: “a vida é grande cobradora e exímia retribuidora; o que faças aos outros sempre retornará a ti”. E, se é assim, por que não procurar fazer apenas o melhor e deixar que a vida cuide do resto?
