Abre o Instagram. Rola o TikTok. Mais um vídeo igual. Mesma música, mesmo corte, mesma legenda, mesma “criatividade”.
Em algum momento, silencioso, quase imperceptível, a publicidade deixou de ser expressão e virou repetição. Uma espécie de linha de montagem digital, onde todo mundo entra na trend, mas ninguém sabe de onde ela veio… nem pra onde está indo.
E estamos falando de 2026. A era da inteligência artificial, da personalização extrema, do acesso ilimitado à informação e, ironicamente, da criatividade enlatada.
É nesse cenário que surge o Marketing 7.0, novo livro de Philip Kotler, ao lado de Hermawan Kartajaya e Iwan Setiawan. E talvez o timing não pudesse ser mais preciso.
De produto à mente: a jornada do Marketing
Para entender o presente, Kotler faz o que sempre fez melhor: organiza o caos.
O Marketing 1.0 nasceu focado no produto: eficiência, escala e produção.
O 2.0 virou o olhar para o consumidor entender, segmentar, vender melhor. O 3.0 trouxe propósito, marcas com valores, conexão emocional.
O 4.0 mergulhou no digital, redes sociais, interação, jornadas híbridas.
O 5.0 colocou a tecnologia no centro, dados, automação, inteligência artificial.
O 6.0 expandiu a experiência, metaverso, mundos imersivos, novas interfaces.
E então chegamos ao 7.0. Mas aqui acontece uma virada silenciosa e poderosa. Não é mais sobre usar mais tecnologia. É sobre entender o que ela está fazendo com a mente humana.
O problema não é a tecnologia é o uso vazio dela
O Marketing 7.0 nasce quase como uma crítica disfarçada. Porque enquanto o mercado celebra performance, métricas e automação, algo se perdeu no caminho: a autenticidade.
Hoje, criadores e marcas repetem fórmulas na esperança de alcançar relevância. Mas o resultado é o oposto tudo parece igual.
A obsessão por engajamento imediato criou um efeito colateral perigoso: conteúdos sem alma, decisões baseadas apenas em números e uma comunicação que esqueceu de ser… humana.
Kotler chama atenção para isso ao propor o conceito de “mind-centric Marketing” , o Marketing centrado na mente.
O consumidor mudou e não foi pouco
O novo consumidor não é só mais informado. Ele é ampliado pela tecnologia. Ele pesquisa, compara, questiona, ignora. Ele consome conteúdo o tempo inteiro e filtra o que não faz sentido em segundos.
Sua jornada não é mais linear. É fragmentada, imprevisível, emocional.
E aqui está o ponto-chave: não basta mais personalizar ofertas é preciso entender como esse consumidor pensa, sente e decide.
É aí que entram disciplinas como psicologia e neurociência, não como tendência, mas como necessidade.
Menos fórmula, mais significado
O Marketing 7.0 não rejeita a tecnologia ele reposiciona seu papel.
A inteligência artificial continua relevante. Os dados continuam essenciais.
Mas eles deixam de ser o fim e voltam a ser o meio.
O foco agora é outro: como acessar a mente do consumidor sem perder a essência da marca?
O livro propõe caminhos práticos para isso, desde construção de narrativa até o uso estratégico de vieses cognitivas na criação de valor. Mas, no fundo, a mensagem é simples (e quase um alerta): eficiência sem significado não sustenta marca.
Talvez o problema não seja a trend…mas o fato de ninguém mais questionar. A criatividade nunca foi sobre fazer diferente só por fazer. Sempre foi sobre fazer sentido. E, nesse mar de conteúdos replicados, o verdadeiro diferencial volta a ser o que sempre foi, desde antes dos algoritmos, antes dos dados, antes das métricas:
A capacidade de entender pessoas.
No fim das contas, o Marketing 7.0 não é sobre o futuro. É sobre resgatar o que ficou para trás, só que com mais consciência. E talvez seja exatamente disso que a publicidade precisa agora.
