O negro e a construção da sociedade brasileira
A população negra constitui , hoje, a maior parcela numérica da sociedade brasileira, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), em 2014, os negros compunham 54% da população brasileira. Mais do que isso, possui uma importância enorme para construção do Brasil. Segundo o professor de Ciências humanas da Universidade Federal do ABC, Flávio Thales Ribeiros, no universo do trabalho, foi o grupo responsável pelo desenvolvimento material do país, realizando a maioria das funções nas principais cidades brasileiras.
No século 18, os saberes técnicos sobre, por exemplo, metalurgia e marcenaria, ourivesaria, plantação, colheita e construção de máquinas de engenhos eram transmitidos pela oralidade de africanos para seus descendentes, o que construiu um legado fundamental para compreender a história do desenvolvimento tecnológico do Brasil. A contribuição do povo é inegável, mesmo que ainda sejam escassos os estudos acerca do assunto.
A estudante de Jornalismo Catarina Virgínia, afro-descendente, explica que essa falha vem desde a escola, onde somos ensinados, de maneira bastante superficial, de que a história do negro limita-se à escravidão. Ao invés das escolas explorarem a cultura, a história e a filosofia negra, somos ensinados que os europeus são patenteadores da cultura e da tecnologia, excluindo qualquer visão que valorize a cultura negra ancestral e sua individualidade.
Influências do negro na mesa e linguagem do brasileiro
Com a vinda dos negros para o país, seus costumes também vieram. Costumes esses que podem ser degustados e apreciados na culinária brasileira. A feijoada que muitos amam comer nos finais de semanas é um prato que foi criado por negros africanos. Mas não só isso, leite de coco, pimenta malagueta, gengibre, quiabo, amendoim, mel, castanha, ervas, azeite de dendê e feijão preto são verdadeiras especiarias não conhecidas antes da chegada desse povo.
Pratos juninos como o vatapá, consumido muito na Região Nordeste, é legado da cultura afro-brasileira. O caruru, feito à base de quiabos; abará, um bolinho de feijão; abrazô, um bolinho de mandioca ou milho; o acaçá, produzido à base de farinha de milho; o acarajé, elaborado com feijão-fradinho, cebola e sal, e frito em azeite de dendê; caldos; cozidos; a galinha de gabidela; o angu; a cuscuz salgada e a famosa moqueca são muitos pratos africanos e afro-brasileiros conhecidos e apreciados aqui. Pratos doces como canjica, mungunzá, quindim, pamonha, angu doce, doce de coco, doce de abóbora, paçoca, tapioca, bolo de milho e bolinho de tapioca também representam e explicitam o sincretismo cultural da nossa culinária.
Segundo o historiador Rafael Domingos, formado pela Universidade de São Paulo, a influência do povo na culinária do país traz um legado imensurável. Mas não só na gastronomia, nossa realidade está permeada de Áfricas, de diásporas que podem ser vistas nos rostos das pessoas, na nossa língua, música, literatura, arte e outros. A lista é grande, já que as dimensões das influências africanas constituem a formação do próprio ser brasileiro.
Quando se fala do português brasileiro, também é válido falar do português afro-brasileiro. Isso mesmo, o campo da linguagem recebeu muita intervenção dos africanos, um povo que não possui apenas uma língua, mas grande quantidade de dialetos. As línguas angolanas de origem banda – quicongo, quimbundo e umbundo – são as que mais influenciaram a fala do brasileiro, principalmente nas regiões Norte e Sul. Bunda, caçula, cochilar, marimbondo, moleque, samba, xingar, batucar e cangaço são algumas palavras de origem banda que influenciaram o idioma do país. Como se pode ver, a África não é só uma, mas muitas dentro de um continente. Marcelino Francisco, moçambicano nascido na cidade da Beira, atesta dizendo: “a variedade linguística é algo a se notar na nossa cultura e na nossa terra.”
Fonte: Site Racismo Ambiental
