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    OPINIÃO: Capitães-do-mato na contemporaneidade: um Palmares chamado BBB? por Ênio Andrade

    AssessoriaBy Assessoria22/02/2021Nenhum comentário4 Mins Read
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    Estamos na terceira década do século XXI, e pouco mais de 130 anos da abolição da escravização no  Brasil, um dos últimos países que tornou livres homens e mulheres que foram arrancados de sua terra mãe  e trazidos para este lado do Atlântico de forma forçada sendo maltratados e tendo seus direitos extirpados  e não respeitados. 

    Travou-se uma luta intensa na busca do resgate dessa tal liberdade almejada por tantos e todos. Nossa  história nos mostra a trajetória dessa luta que se estende até os dias de hoje e outrora apresentava o  arquétipo do capitão do mato como sendo um indivíduo preto que tinha conseguido sua liberdade e  perseguia seus iguais por conhecer seus costumes e hábitos e facilmente poderia evitar que os fugitivos  estabelecessem um novo Palmares como ambiente de liberdade. 

    Com uma edição revolucionária o programa televisivo, que não passa de um experimento social, mesmo  já tendo sido vencido por uma mulher preta, hoje divide sua casa em metade de indivíduos pretos que  adentram o programa com uma proposta de se mostrar e lutar por causas relacionadas a homens e  mulheres pretos/negros, mas o que vimos foi o que Ronaldo Tadeu (2020, cientista político) chamou de  obscenidade: a postura de alguns indivíduos de nossa sociedade, que mesmo sendo negros/pretos, desvalorizam a cultura negra de nosso país. 

    A obscenidade proposta no texto aqui escrito perpassa pelo desprezo que vemos na atualidade por toda  luta da população preta desse país. 

    Mesmo sofrendo ataques de que homens e mulheres brancas não possuem legitimidade ou  autoridade para falar sobre tal assunto, através da incorreta fala de que não temos lugar de fala, temos sim, podemos não ter o protagonismo, mas nos sentimos atingidos por questões que levam um ser,  independentemente de sua cor ou colorismo, ao sofrimento. 

    O BBB 21 nos mostrou dentro da casa, aquilo que muito vemos aqui fora e muitas das vezes fazemos  questão de não perceber: independente de nossa divisão de cores em brancos, pretos, pardos, quando se  trata de questões que interfiram na esfera individual. 

    Vemos cidadãos que adentraram o programa com a proposta de visibilidade para várias causas, não só a do racismo mas também a questão da homofobia, serem tratadas de forma agressiva por estes mesmos  que se colocaram à disposição da luta cedendo ao processo instalado desde sempre em nossa sociedade ao  qual chamamos aqui de privilégio branco. 

    Podemos perceber capitães do mato, no experimento social, decidindo o que se deve fazer ou não e  decidindo a vida de alguns, determinando, aceitando ou refutando a postura e o comportamento dos seus  pares. 

    Vimos uma sociedade se unir, agora independente de cor, para “eliminar” do programa os componentes  que abusaram de sua posição de prestígio, e não são os brancos, que torturaram psicologicamente e  seguem no processo de exclusão daqueles que não agem de acordo com seus interesses, gerando ainda  discriminação entre os próprios pares, usando inclusive termos como “sujinho” e tornando lutas que  deveriam ser coletivas em solução de seus conflitos internos. 

    A eliminação do humorista, que virou chacota por não fazer ninguém rir, parece ter sido o início de uma  abertura para que as pessoas percebam que não existe mais espaço para este processo que visa o retorno  dos capitães-do-mato no intuito de calar e oprimir, praticar a discriminação religiosa ou sexual agindo  com o outro a partir da opressão que sofreram e ainda não conseguiram elaborar, percebemos que hoje  não lutamos mais contra a escravização do ser negro/preto, mas sim pela liberdade de ser efetivamente  alguém com responsabilidade e deveres além das possibilidade de compartilhar de forma igualitária e  com equidade. 

    São exigências que se apresentam hoje diante da demanda de ocuparem o lugar a essa população devida.  Sabemos que a história não aceita mais comportamentos como esse que presenciamos e nos revoltou. 

    Não podemos sucumbir ao pensamento reacionário, elitista e excludente. Fora Capitães-do-mato, fora a  intransigência, fora a discriminação, fora a todos aqueles que impedem o ressurgimento de um novo  Palmares como forma de preservação. 

    Termino dizendo que precisamos não criar um novo Palmares, mas sim uma sociedade justa, digna e sem  preconceitos e discriminação. 

    BBB 21 infelizmente nos mostra o reflexo do que hoje acontece em nossa sociedade. Precisamos parar e  refletir. Somos todos um só, e só assim seremos mais fortes. 

    *O autor é mestre em Psicologia, especialista em Clínica Social e professor da Fametro. 

    BBB Ênio Andrade Opinião Psicologia
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