Estamos na terceira década do século XXI, e pouco mais de 130 anos da abolição da escravização no Brasil, um dos últimos países que tornou livres homens e mulheres que foram arrancados de sua terra mãe e trazidos para este lado do Atlântico de forma forçada sendo maltratados e tendo seus direitos extirpados e não respeitados.
Travou-se uma luta intensa na busca do resgate dessa tal liberdade almejada por tantos e todos. Nossa história nos mostra a trajetória dessa luta que se estende até os dias de hoje e outrora apresentava o arquétipo do capitão do mato como sendo um indivíduo preto que tinha conseguido sua liberdade e perseguia seus iguais por conhecer seus costumes e hábitos e facilmente poderia evitar que os fugitivos estabelecessem um novo Palmares como ambiente de liberdade.
Com uma edição revolucionária o programa televisivo, que não passa de um experimento social, mesmo já tendo sido vencido por uma mulher preta, hoje divide sua casa em metade de indivíduos pretos que adentram o programa com uma proposta de se mostrar e lutar por causas relacionadas a homens e mulheres pretos/negros, mas o que vimos foi o que Ronaldo Tadeu (2020, cientista político) chamou de obscenidade: a postura de alguns indivíduos de nossa sociedade, que mesmo sendo negros/pretos, desvalorizam a cultura negra de nosso país.
A obscenidade proposta no texto aqui escrito perpassa pelo desprezo que vemos na atualidade por toda luta da população preta desse país.
Mesmo sofrendo ataques de que homens e mulheres brancas não possuem legitimidade ou autoridade para falar sobre tal assunto, através da incorreta fala de que não temos lugar de fala, temos sim, podemos não ter o protagonismo, mas nos sentimos atingidos por questões que levam um ser, independentemente de sua cor ou colorismo, ao sofrimento.
O BBB 21 nos mostrou dentro da casa, aquilo que muito vemos aqui fora e muitas das vezes fazemos questão de não perceber: independente de nossa divisão de cores em brancos, pretos, pardos, quando se trata de questões que interfiram na esfera individual.
Vemos cidadãos que adentraram o programa com a proposta de visibilidade para várias causas, não só a do racismo mas também a questão da homofobia, serem tratadas de forma agressiva por estes mesmos que se colocaram à disposição da luta cedendo ao processo instalado desde sempre em nossa sociedade ao qual chamamos aqui de privilégio branco.
Podemos perceber capitães do mato, no experimento social, decidindo o que se deve fazer ou não e decidindo a vida de alguns, determinando, aceitando ou refutando a postura e o comportamento dos seus pares.
Vimos uma sociedade se unir, agora independente de cor, para “eliminar” do programa os componentes que abusaram de sua posição de prestígio, e não são os brancos, que torturaram psicologicamente e seguem no processo de exclusão daqueles que não agem de acordo com seus interesses, gerando ainda discriminação entre os próprios pares, usando inclusive termos como “sujinho” e tornando lutas que deveriam ser coletivas em solução de seus conflitos internos.
A eliminação do humorista, que virou chacota por não fazer ninguém rir, parece ter sido o início de uma abertura para que as pessoas percebam que não existe mais espaço para este processo que visa o retorno dos capitães-do-mato no intuito de calar e oprimir, praticar a discriminação religiosa ou sexual agindo com o outro a partir da opressão que sofreram e ainda não conseguiram elaborar, percebemos que hoje não lutamos mais contra a escravização do ser negro/preto, mas sim pela liberdade de ser efetivamente alguém com responsabilidade e deveres além das possibilidade de compartilhar de forma igualitária e com equidade.
São exigências que se apresentam hoje diante da demanda de ocuparem o lugar a essa população devida. Sabemos que a história não aceita mais comportamentos como esse que presenciamos e nos revoltou.
Não podemos sucumbir ao pensamento reacionário, elitista e excludente. Fora Capitães-do-mato, fora a intransigência, fora a discriminação, fora a todos aqueles que impedem o ressurgimento de um novo Palmares como forma de preservação.
Termino dizendo que precisamos não criar um novo Palmares, mas sim uma sociedade justa, digna e sem preconceitos e discriminação.
BBB 21 infelizmente nos mostra o reflexo do que hoje acontece em nossa sociedade. Precisamos parar e refletir. Somos todos um só, e só assim seremos mais fortes.
*O autor é mestre em Psicologia, especialista em Clínica Social e professor da Fametro.
