Basta procurar no Google para entrar em contato com diversas pesquisas que indicam que a saúde mental de pessoas negra é diretamente afetada pelo racismo estrutural que pauta as diversas relações presentes em nossa sociedade.
Podemos dizer que o racismo regula a distribuição desigual de recursos que visam o acesso à educação, saúde, habitação, justiça e trabalho entre a população negra em relação a pessoas brancas. Junto disso, podemos pensar as repercussões dessa realidade estruturada pelo racismo à nível psíquico e subjetivo sobre as pessoas negras.
Existem distintas maneiras de sofrimento psíquico que afetam à população negra e para compreendermos esse fenômeno é necessário considerar as diversas características que atravessam a vivência das pessoas negras, tais como gênero, classe, geração, urbanidade, ribeirinhos ou do campo, carcerária, orientação sexual, credo religioso e etc. Esses fatores se cruzam e definem os níveis de proteção e vulnerabilidade que um individuo ou a população será afetada.
Ao considerarmos a experiência subjetiva da população negra podemos evidenciar que o racismo que estrutura a nossa sociedade afeta de forma expressiva a saúde mental. Em uma pesquisa intitulada “Raça/cor da pele e transtornos mentais no Brasil” publica em 2017 de autoria de Jenny Smolen e Edna de Araujo é percebido uma associação entre racismo e depressão, ansiedade, Transtorno de Estresse Pós Traumático. Bem como, o racismo internalizado tem relação com o desenvolvimento de depressão maior. Em outra pesquisa
intitulada “Raça, racismo e saúde: a desigualdade social da distribuição do estresse” publicada em 2011 indica que as mulheres negras sofrem mais de estresse crônico que homens negros, indicando uma questão de gênero.
Alguns trabalhos indicam que um dos modos de enfrentar o racismo não é parar de falar em racismo, mas desenvolver trabalhos que visem uma construção do regaste, à nível individual e coletivo, da história e potencialidades da população negra.
A construção de um processo educativo sobre o sentido de ser negro de modo positivo e de como lidar com a discriminação racial, tais processos têm como consequência o estabelecimento de uma noção de si, do mundo e do futuro baseada na valorização de suas particularidades e herança racial. Junto disso, a implementação de políticas públicas intersetoriais na saúde integral da população negra.
Outro espaço de enfrentamento é a Psicologia que carrega consigo uma resolução (nº 18 de 2002) e Referências técnicas de atuação (2017) que têm como finalidade orientar sobre como proceder em demandas étnico raciais. Porém, boa parte dos profissionais de saúde, até mesmo os psicólogos, desconhece ou ignora os trágicos efeitos do racismo estrutural sobre pessoas negras.
Uma das maneiras de mudar isso, que auxiliará numa melhor compreensão e enfrentamento ao racismo a nível de sociedade, é investimento na educação e formação dos profissionais de saúde a partir de uma consideração dos elementos das questões raciais e que alcancem às necessidades da população que hoje ocupa numericamente a maioria da população brasileira, mas que ainda é minoritariamente representada, e assim alcançar um fazer que de fato proporcione uma melhoria da qualidade de vida que seja realmente de todas e todos.
O autor é Mestre em Psicologia e Professor da Fametro
