A rotina universitária inclui desafios que vão muito além das atividades em sala de aula. Provas, trabalhos, prazos, cobranças, conciliação entre estudos e vida pessoal e a necessidade de planejar o futuro profissional fazem parte do cotidiano de muitos acadêmicos. Nesse cenário, a ansiedade tem ganhado cada vez mais espaço e pode afetar diretamente a qualidade de vida, a concentração e o desempenho acadêmico.
O psicólogo Arthur Silva de Souza, docente do Centro Universitário Fametro e especialista em Neuroanatomofisiologia, explica como a ansiedade, o uso excessivo de dispositivos digitais e a fragmentação da atenção podem interferir na saúde mental e na vida acadêmica dos jovens.
Para o professor, que acompanha essa realidade de perto tanto no ambiente educacional quanto na prática profissional, o aumento dos estímulos digitais é um dos fatores que precisam ser observados. Segundo ele, a combinação entre excesso de telas, privação de sono e dificuldade de manter a atenção pode contribuir para o esgotamento dos estudantes.
Excesso de telas e qualidade do sono
Entre os aspectos que merecem atenção está o uso excessivo de dispositivos digitais, principalmente no período noturno. Arthur destaca estudos do neurocientista francês Michel Desmurget sobre os impactos do excesso de telas. Na obra A Fábrica de Cretinos Digitais: os perigos das telas para as nossas crianças, o autor chama atenção para a relação entre o uso de dispositivos e a qualidade do sono.
“Um cérebro privado de sono tem sua capacidade de regulação emocional prejudicada, o que pode favorecer respostas de estresse e dificuldades de concentração”, afirma Arthur.
Para o professor, o problema não está apenas no tempo de exposição às telas, mas também na maneira como os dispositivos passaram a ocupar diferentes momentos do dia. O celular acompanha o estudante durante as aulas, nos momentos de estudo, nas refeições e até antes de dormir. A consequência pode ser uma rotina marcada por estímulos constantes e poucas oportunidades de descanso efetivo.
Atenção fragmentada também afeta os estudos
Outro ponto destacado pelo professor é a dificuldade de manter o foco diante da quantidade de informações e notificações disponíveis atualmente. Arthur cita o conceito de “custo de troca” (switching cost), relacionado à necessidade de alternar constantemente a atenção entre diferentes tarefas.
O custo de troca corresponde ao gasto de tempo e energia mental que ocorre quando o cérebro muda de uma tarefa para outra. Em vez de realizar duas atividades complexas simultaneamente, o indivíduo alterna rapidamente o foco entre elas, o que pode provocar fadiga, perda de tempo e mais erros na rotina.
“O estudante não realiza multitarefa de fato, porque o cérebro humano precisa alternar o foco rapidamente entre diferentes estímulos, como o slide da aula, a notificação do celular e o resumo. Essa alternância constante exige esforço cognitivo, sobrecarrega a memória de trabalho e pode gerar sensação de esgotamento e frustração”, explica.
Na prática, estudar com o celular ao lado, responder mensagens enquanto assiste a uma aula ou alternar constantemente entre redes sociais e materiais acadêmicos pode dificultar a concentração e tornar o processo de aprendizagem mais desgastante.
Redes sociais e a sensação de estar sempre conectado
As redes sociais também fazem parte desse cenário. De acordo com o especialista, o ambiente digital pode ocupar uma parcela significativa do tempo que poderia ser destinado a atividades físicas, interações presenciais, descanso e outras experiências importantes para o desenvolvimento.
“As redes sociais podem operar aquilo que Desmurget chama de ‘roubo de tempo’ do desenvolvimento. Elas podem substituir momentos que o jovem utilizaria para interações humanas presenciais, para a prática de atividades físicas e até para o ócio criativo”, afirma.
Michel Desmurget utiliza a expressão “roubo de tempo” para discutir como o uso recreativo das telas pode ocupar períodos que poderiam ser destinados a outras atividades importantes para o desenvolvimento.
O professor também chama atenção para o consumo frequente de vídeos curtos e conteúdos rápidos. A grande quantidade de estímulos pode criar a sensação de que o estudante está constantemente aprendendo e se informando, enquanto sua atenção permanece fragmentada.
“Isso também pode alimentar o FOMO, o medo de ficar por fora, e contribuir para uma ansiedade constante, já que o mundo acadêmico exige tempo, concentração e maturação, características que o ambiente digital nem sempre favorece”, explica.
FOMO é a sigla para Fear of Missing Out, ou “medo de ficar de fora”. O acrônimo foi criado e popularizado pelo investidor e escritor norte-americano Patrick J. McGinnis, a partir de um artigo de opinião escrito para o jornal estudantil de Harvard.
Quando a ansiedade começa a prejudicar o desempenho acadêmico?
Sentir ansiedade antes de uma prova, apresentação ou situação importante não significa necessariamente que exista um problema. Segundo Arthur, certo nível de ansiedade pode fazer parte das experiências acadêmicas. O sinal de alerta aparece quando os sintomas se tornam frequentes e começam a interferir na vida do estudante.
“Sentir um frio na barriga antes de uma prova ou apresentação é normal e esperado. O problema é quando o sintoma se torna a regra, e não a exceção”, destaca.
A ansiedade intensa também pode interferir diretamente na capacidade de concentração. Pensamentos relacionados ao medo do fracasso, preocupações e inseguranças podem ocupar parte da capacidade cognitiva que seria utilizada para realizar uma atividade acadêmica.
“Quando o estudante entra em um estado de ansiedade intensa, pensamentos intrusivos, preocupações e medo do fracasso ocupam parte deste espaço de processamento. Na prática, sobra menos capacidade cognitiva para resolver uma questão de prova ou interpretar um texto complexo”, explica Arthur.
Dessa forma, o estudante pode entrar em um ciclo no qual a ansiedade prejudica a concentração, a dificuldade de concentração interfere no desempenho e o baixo desempenho aumenta ainda mais a preocupação.
Como os estudantes podem lidar melhor com a ansiedade?
Para Arthur, algumas mudanças na rotina podem contribuir para uma relação mais saudável com os estudos e com a tecnologia. Entre elas está a criação de limites para o uso de dispositivos digitais, especialmente antes de dormir.
“Estabeleça um ‘toque de recolher digital’. Desligue as telas ou afaste o celular do quarto pelo menos uma hora antes de dormir. Proteger o sono é um dos primeiros passos para favorecer a regulação emocional”, orienta.
Outra recomendação é modificar a forma de estudar, evitando realizar várias atividades simultaneamente.
“Abandone a ideia de estudar com o feed do Instagram aberto ao lado. Utilize blocos de foco único, de 25 ou 30 minutos, e faça pausas reais, preferencialmente sem telas”, aconselha.
Por fim, o professor reforça que enfrentar a ansiedade não precisa ser uma experiência solitária. A busca por acompanhamento psicológico, o fortalecimento das relações presenciais e a utilização dos canais de acolhimento disponíveis na instituição podem ser importantes aliados.
“A ansiedade pode distorcer a percepção da realidade, fazendo com que os desafios pareçam maiores e a nossa capacidade de enfrentamento pareça menor. Não enfrentam isso sozinhos. Busquem psicoterapia, fortaleçam suas redes de apoio e utilizem os canais de acolhimento disponíveis na Fametro”, conclui Arthur.
A atenção à saúde mental, portanto, também faz parte da formação universitária. Reconhecer os próprios limites, estabelecer uma rotina de estudos mais saudável, equilibrar o uso das telas e procurar ajuda quando necessário são atitudes que podem contribuir não apenas para o desempenho acadêmico, mas também para uma melhor qualidade de vida durante a graduação.
