Qualidade de vida, saúde física e mental, vida plena, são estes os objetivos do ser humano, preto ou branco.
O que seria vida plena?
Direito de ir e vir, condições de buscar o conhecimento, de circular, frequentar e ter acesso aos espaços de convivência e lazer, de aprendizagem, de trabalho, com liberdade e sem restrições. Relacionamento familiar e social prazeroso. Ter o direito de viver e conviver em ambientes com infraestrutura ambiental básica: iluminação, água e esgoto, transporte e segurança.
É o que acontece?
A maioria da população brasileira é formada pelos chamados menos favorecidos, uma população de baixa renda, que reside em espaços limitados, em favelas, em palafitas onde a infraestrutura básica é desconhecida.
Dentro desta população menos favorecida, a maioria é constituída por pretos e pardos. O homicídio de jovens negros de 15 a 29 anos é três vezes maior quando comparado a jovens brancos da mesma faixa etária, segundo o PNUD.
A população negra tem salário duas vezes menor que a população branca, apenas uns poucos conseguem sair desta condição e ascender para uma posição que lhe permite ter um imóvel próprio, um veículo e uma posição profissional diferenciada dos demais de sua origem.
O número de executivos negros e negras é mínimo, causa estranhamento quando se encontra uma mulher negra em posição de alta administração. Você conhece alguma? Na empresa que você trabalha existem negros, homem ou mulher em posição de liderança ou de chefia? E na
diretoria? Quantos negros existem em sua sala de aula? Como são seus sentimentos e pensamentos quando um negro vem em sua direção ou quando você encontra um negro na sala ou ambiente que você está?
Na última sexta-feira, dia 20 de novembro tivemos o Dia Nacional da Consciência Negra, instituído pela Lei Federal de n.12.519, cujo objetivo é chamar a atenção para a condição de discriminação dos negros no Brasil, condição que se eterniza desde a escravidão, onde a escravização foi justificada com afirmações de que o negro só é capaz de executar tarefas simples e pesadas, não possui as capacidades intelectuais e de aprendizagem dos brancos e que possui características como agressividade e tendência a criminalidade, razão pela qual não merece confiança.
Ao mesmo tempo as realizações e participações de negros foram omitidas na história do Brasil, com o objetivo de fortalecer essa imagem deturpada, criada para manter os negros na condição de escravidão e subjugação.
Quando da libertação dos escravos e a criação da condição de trabalhadores livres, os negros libertos mais uma vez foram submetidos a condições aviltantes, com oferta de pagamentos irrisórios por seus serviços, o que também foi eternizado, que se mostra hoje nos resultados das pesquisas, de salário mais baixo para trabalhadores negros do que para brancos.
Quando se fala de racismo estrutural, está se falando destes fatos que contribuíram para a criação de um olhar diferenciado negativamente para os negros, que se repete ainda hoje, se traduzindo no impedimento ao acesso a alguns espaços, a dificuldade de conquistar algumas posições, a receber um olhar de desmerecimento e desigualdade.
Um dia para refletir, o dia 20 de novembro. Nasci negra, condição que como a todos os negros, me levou a desenvolver estratégias de enfrentamento e superação, diante da maneira como as pessoas nos olham, se dirigem a nós, nos recebem ou falam conosco. Vivi e ainda hoje vivo situações de restrição e olhares de surpresa em ambientes onde pretos não são frequentes, em consequência deste racismo estrutural e da naturalização dos lugares onde os negros “podem estar”.
Reflita honestamente sobre isto e procure analisar sua resposta. Lembra dos objetivos do ser humano? Qual é a sua contribuição para torná-los realidade? Como você lida e vive o racismo?
A autora é professora da Fametro e presidente do Conselho Regional de Psicologia 20.ª Região.
