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    Moda Circular na Amazônia: o empreendedorismo que ressignifica histórias

    Ana ClarissaBy Ana Clarissa06/06/2025Nenhum comentário5 Mins Read
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    Escrito por: Natália de Araújo Póvoas, terceiro período do curso de Jornalismo do Centro Universitário Fametro. 

    Mulheres amazonenses transformam roupas usadas em renda, propósito e consciência ambiental

    “Tudo na vida é um ciclo, e esse universo tem a ver com vivência”, diz Lylle Abreu, estilista, figurinista e proprietária do Hello Bonita, um brechó online. Antes de mergulharmos nesse universo, vale um resgate histórico contado por Lylle: no século XIX, um comerciante de nome Belchior ficou conhecido por vender peças de roupas usadas nas ruas do Rio de Janeiro. Tamanha foi sua fama ao ponto de seu nome dar origem ao que é hoje uma das atividades comerciais mais presentes no Brasil: o brechó.

    O empreendedorismo feminino vem ganhando espaço e transformando a vida das mulheres na Amazônia, unindo moda circular e sustentabilidade. Ainda persiste uma visão atrasada de que brechós são lugares de roupas velhas e baratas. É comum associar esses espaços a cheiro de mofo e poeira, consequência de estereótipos antigos. Mas, em chãos amazônicos, a moda circular ganha voz e ganha vida. Mulheres transformam peças que poderiam ser descartadas no lixo em sustento, revolucionam o mundo da moda e despertam a consciência ambiental.

    A fala da jovem Lara Sophia, de 12 anos, mostra que o pensamento está mudando: “Toda roupa pode ser descolada, e eu não tenho problema nenhum em comprar roupa de brechó”. Desde pequena, ela aprende em casa sobre consumo consciente e autenticidade. Sua fala reflete um novo conceito e mostra que, por meio da educação, é possível reescrever uma história que por muito tempo foi marcada por desigualdade e impactos socioambientais.

    Um exemplo disso foi o desabamento do edifício Rana Plaza, em Bangladesh, em 2013, que tirou a vida de mais de 1.100 trabalhadores a maioria mulheres  e deixou outros 2.500 feridos. A tragédia escancarou os danos da indústria da moda, impulsionando o movimento slow fashion, que defende uma moda ética, com menos consumo, mais durabilidade e valorização de quem faz cada peça.

    Segundo a ONU Meio Ambiente, a moda é responsável por 20% da poluição da água no mundo e 10% das emissões globais de carbono. No Brasil, o setor de brechós cresceu mais de 210% nos últimos cinco anos, segundo o Sebrae impulsionado pelo empreendedorismo feminino e pela busca por práticas sustentáveis.

    Dividida entre empreendedorismo e maternidade, Gabriela Macedo e sua cunhada Joane Lima são proprietárias do Brechó Delas, localizado no bairro Flores, em Manaus. O espaço é organizado, climatizado e estruturado para receber clientes com conforto. 

    Ambiente interno do Brechó Delas, comandado por Gabriela Macedo e Joane Lima, no bairro Flores, em Manaus. O espaço também recebe eventos de moda circular entre mulheres empreendedoras. (Foto: Acervo pessoal).

    Além das vendas, também serve como ponto de encontro para eventos de moda circular, reunindo outras mulheres empreendedoras para compartilharem experiências.

    Gabriela conta que consegue conciliar a maternidade e o trabalho porque grande parte das vendas acontece online. A boutique física funciona em dias alternados, o que permite maior autonomia e rentabilidade. Com mais de 8 mil seguidores nas redes sociais, o Brechó Delas promove interações, promoções e conteúdo que incentivam o consumo consciente. O que começou como um desapego virou negócio rentável e transformador.

    “Depois que a gente viu que esse mundo era rentável e estava nos dando um retorno positivo, resolvemos formalizar, fazer pesquisa de mercado, procuramos fazer a curadoria e ver que cada peça de roupa conta uma história”, disse Gabriela.

    Do outro lado da cidade, vive Crisiane Brasil da Silva, de 43 anos, moradora da comunidade do Kokama, no km 2 da BR-174. Cris já havia trabalhado com vestuário antes, mas por morar distante, teve que abandonar o trabalho. Agora, na zona rural de Manaus, ela caminha mais de 15 minutos em área deserta cercada por floresta para alcançar o ponto de ônibus mais próximo.

    Mãe solo de duas meninas, Cris sempre trabalhou e viu potencial em empreender no novo local. Sem condições de comprar roupas novas para revenda, encontrou na moda circular uma oportunidade de recomeçar. Deixou a CLT e, com esperança, constrói seu próprio negócio:

    “Iniciei esse ponto só que só fiz a construção das duas paredes, porque ela está encostada na parede da minha casa. Aí eu estou tentando e em nome de Jesus eu creio, que eu vou conseguir cobrir o espaço com uma telha e fazer as portas nem que sejam de compensados”, afirma.

    Lylle Abreu, membro do movimento Fashion Revolution, fala com propriedade sobre a psicologia da roupa e o poder de vestir-se com consciência. Para ela, o brechó não é só um negócio, mas uma ferramenta de educação. Seu envolvimento com o second hand começou a partir de reflexões profundas sobre sua própria trajetória e a origem de cada peça. Com sensibilidade e criatividade, ela construiu um trabalho alinhado ao seu propósito.

    Lylle não é apenas uma vendedora. Ela é uma ponte para outras mulheres, como Gabriela e Crisiane, ingressarem nesse mercado promissor. Ela afirma que o brechó traz dignidade e propõe uma mudança de discurso: o termo “tendência” deveria ser abolido, pois estimula um consumo desenfreado que agride o meio ambiente. Segundo ela, a indústria da moda é a segunda que mais polui o planeta atrás apenas do petróleo.

    Na prática, o second hand se consolida também em franquias como a Loja Cresci Perdi e o Peça Rara, com brechós localizados inclusive em zonas nobres de Manaus. O que antes era marginalizado agora ganha status, mostrando que a moda circular veio para ficar.

    Assim como a vida, as peças de roupa também têm seu ciclo. O que começa com a gente pode ser passado para outra pessoa, pode ser reinventado e ganha novo valor. A moda circular transforma vidas, ressignifica histórias e nos convida a vestir, com consciência, uma nova forma de existir.

    jornalismo mulheres amazonenses Natália de Araújo
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    Ana Clarissa

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